Era manhã de 1º de Julho de 1988 e não se enxergava praticamente nada com aquela neblina pesada na estrada que liga Jardinópolis a Sertãozinho, municípios do interior do estado de São Paulo. Estávamos ansiosos, Henrique Villares e eu, para o 1º dia de estagio na fazenda do IZ de Sertãozinho. Seriam 30 dias imersos no estudo do melhoramento genético e confinamento com o Dr. Razook e Dr. Paccola nas férias de julho. Talvez uma das mais relevantes práticas que vivenciamos nas férias do curso de zootecnia da USP. Foram preciosos estágios não obrigatórios realizados pelos futuros zootecnistas da 8ª turma da USP no período de férias universitárias. Eram nesses intervalos de aulas que podíamos realmente vivenciar a pratica do campo, pois ainda não havia no curso a etapa de estagio curricular obrigatório de 6 meses após o termino das matérias.

No momento em que presenciamos lastimáveis 13% de desemprego no Brasil, o sistema educacional sofre um duro revés com a aplicação da Lei do Estágio nas empresas. Diz a Lei que as empresas podem contratar estagiários sem ônus, somente e tão somente para cumprir seu estágio curricular, devendo cada aluno permanecer 6 horas diárias ou 30 horas semanais na empresa que lhe concede o estagio.

Embora saibamos que algumas empresas brasileiras se locupletaram com o uso dessa mão de obra barata, mas pouco experiente, sabemos também que no ramo das ciências agrárias os estágios são a real forma de aprendizado, pois a prática de campo vem complementar o embasamento teórico ministrado nas universidades.

Em conversa a respeito dessa contraditória lei com Cláudio Magnabosco, um dos grandes melhoristas em gado de corte da Embrapa, pude confirmar o que já desconfiava. Tal lei aplicada no campo das ciências agrárias vem trazendo perdas homéricas para o sistema educo-profissional. De acordo com Magnabosco, somente na unidade da Embrapa Arroz e Feijão inúmeros estudantes das agrárias que ali realizavam estágios haviam sido convidados a se retirar. Registre-se que essa unidade de pesquisa contribuiu fortemente para formação profissional de centenas de zootecnistas de todo Brasil.

Gostaria de fazer uma reflexão racional sobre o tema, considerando, a priori, que é ilegal explorar gratuitamente a mão de obra de um estudante. No entanto, depois de 20 anos contribuindo para a formação de universitários no campo, quero dizer que não é fácil ensinar, embora o conhecimento não deva ficar restrito a um cérebro. Para isso tenho o seguinte princípio: o conhecimento é construído com discernimento e experiência, se tornando útil quando for transmitido entre gerações.

Se compararmos o problema com a aviação civil, nos depararemos com a seguinte situação: os candidatos a piloto comercial, alunos que pretendem cargos de piloto, pagam caro um curso para obtenção do brevê. Tão logo acabam o curso, iniciam a fase prática, tendo que desembolsar um valor para mais 150 horas de voo, até possuir a experiência suficiente para obter uma vaga de co-piloto numa pequena companhia aérea, ou seja, o futuro piloto civil investe pesado para conseguir a prática tão desejada, e o tão sonhado emprego.

Traçando um paralelo, costumo defender que os recém formados não deveriam pagar como os pilotos para fazer estágios nas empresas. Ao mesmo tempo, acho um tanto irreal que empresas tenham que pagar por essa mão de obra tão pouco experiente.

É parte do estatuto das empresas de nível a formação de alunos através de estágios. No entanto, sabemos que a Lei do Estágio restringiu demais a bonita simbiose ora existente entre alunos e empresas. É inconcebível ao futuro aluno processar a empresa que lhe deu estágio, o que comprometeria seu futuro na área, pois o mesmo ficaria marcado para o resto da sua vida profissional por essa atitude.

O ideal seria que alunos e empresas a se respeitassem mutuamente buscando alternativas de estágio, pois as empresas desejam ser referências para esse futuro profissional, e os alunos precisam aprender, tendo a empresa quase como uma mãe que o acolheu.