Enquanto a balsa cruzava o pujante Rio Araguaia, presa em um cabo de aço que, por ora, ligava o Pará ao Tocantins, na altura da cidade de Araguacema, o pecuarista Hilton Mello e eu trocávamos ideia sobre os resultados de cruzamento por ele obtidos.

Hilton sempre foi adepto do melhoramento de forma categórica, selecionando as melhores matrizes Nelore para serem inseminadas com touros Nelore maternos e fazendo cruzamento terminal com raças europeias nas vacas Nelore de pior produção. Há mais de 20 anos inseminando seu rebanho, localizado próximo a Santana do Araguaia, no Pará, Mello iniciou, usando sêmen de Limousin, passando por Simental, Red Angus, Hereford e Angus, sempre abatendo seus cruzados em torno de dez meses antes da boiada Nelore, com 1,5@ a mais que os zebuínos.

Abordamos diversos aspectos de seu projeto e o novo mercado surgido para a fêmea F1 (meio-sangue), no qual a mesma recebe preço de boi mais prêmio, se abatida até os 30 meses de idade com peso acima de 16@, levando-me a questioná-lo por que nunca pensara em usar a F1 como matriz, fazendo o cruzamento terminal sobre ela com uma terceira raça. Se assim o fizesse, poderia tirar uma cria de sua novilha, abatendo-a ainda com um preço compensador.

Em um rompante, o experiente pecuarista respondeu com outra pergunta: – Diga-me uma coisa, Zadra: o animal tricross vai ser melhor que o meio-sangue no abate?

Bem, para responder a essa pergunta, precisamos pensar nos ganhos gerais obtidos com o cruzamento e não somente em uma característica. Se nos ativermos somente a ganho em peso, realmente o F1 pode sair na frente, visto que o biótipo e a fisiologia de crescimento da raça Nelore se encaixam como uma luva no biótipo precoce e no alto metabolismo do europeu, além de gerar heterose máxima e adaptação para qualquer tipo de clima.

E continuei minha diatribe. Quando pensamos em fazer um tricross, nos vem novamente à cabeça o uso da heterose como ferramenta estratégica, em que, para esse caso, devemos pensar em uma raça taurina adaptada como Senepol, Caracu e Bonsmara. Porém, se engana quem pensa que, ao usar tais raças nas suas F1, produzirá animais mais pesados ao abate, pois elas são selecionadas há pouco tempo para essa característica, quando comparamos com as raças europeias, que por séculos vêm sendo usadas com o intuito de produção de carne.

Tenho andado por todos recônditos de nossa pecuária e algumas opções de cruzamento sobre suas meio-sangue Angus têm dado resultados impressionantes na característica de ganho em peso, tais como Canchim, que apresenta ótima performance quando recriados e engordados com capricho, mesmo em ambientes de muito calor como o seu. Somente lembro que, por ser um animal de grande porte, para atender ao acabamento mínimo exigido pela indústria, esses animais tricross devem, se possível, ser abatidos até os 18 meses de idade recebendo ração concentrada na faixa de 2% do peso vivo.

Outras raças que vêm avançando nos projetos de venda de animais superprecoces são o Simental e o Charolês, os quais produzem um tricross de altíssima qualidade para o cocho, devendo ser desmamados e levados diretamente ao confinamento, onde ficarão por até 160 dias, sendo abatidos com até 14 meses de idade.

Já encostando no cais do lado tocantinense, não me contive para afirmar que se Hilton quiser ter lucro máximo na pecuária produtiva, deve, além de fazer o cruzamento terminal usando a fêmea F1 como matriz, repor suas vacas Nelore comprando novilhas a ponto de enxerto, pois, de acordo com os estudos econômicos do Clay Center/Nebrasca, o cruzamento terminal dá melhores resultados quando repomos nossas matrizes descartadas com vacas prenhes ou novilhas a ponto de enxerto.

Por conta dessa conversa, Hilton fechou parcerias com seus vizinhos, incentivando-os a inseminar suas matrizes com Nelore de qualidade, tornado-se o principal cliente deles, ao concluir que os pesquisadores estavam certos. Seu caixa melhorou demais, pois, atualmente, além de receber um bom dinheiro com suas vacas de descarte para o abate, comercializa 100% dos produtos tricross.